
Sóbrios momentos em que me deixo fluir no pensamento, horas perdidas no limite dos sonhos, embrulhados num papel purpurina, numa fita colorida que não se desata. Apenas guardo de ti um segredo tímido e, em gestos aguçados, os coloco na sombra. Não há futuro sem limites, não há retratos de vida que não se apaguem. Talvez desejasse libertar-me do mundo, tirar breves horas da minha rotina, trancar lá fora as memórias e perigos, parar o relógio que não se cansa e fugir para outro lugar, levar-te nessa aventura e regressar depois do risco. Um risco que amolgaria toda uma novela de vida, mas um risco que retiraria os pontos de uma ferida prazeirosa com interrogações inesgotáveis. Sou eu que fluo neste devaneio, percebendo que o quero viver para não continuar na ignorância, é entregar-me simplesmente a uma coisa que parece que só eu espero. Se tudo fosse claro, livre de recusas, se, como para mim, o risco se identificasse como uma força do destino...! Tão mais fácil... pisco os olhos num gesto cansativo... sempre desejei fazer esta viagem secreta, longe de olhares, perto do desejo, tão longe do concreto... banho-me numa espuma inocente, visto a saia da ternura, da redescoberta e parto rumo às minhas loucuras... Caminho a passos curtos e apelativos, espero que a rolha salte desse vinho de longa data, escorra naqueles cálices guardados e nos embebedem o corpo e a alma... a manhã empurra-me para estes sonhos que só para mim fazem sentido, a tarde entrega-me às memórias e a noite rende-me aos sonhos, mil e uma histórias renovadas... errado no tempo, mais uma vez não se cura...
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