
Adormeci insegura, abraçada em tecidos coloridos meio esbatidos do suor das melancólicas memórias... esperei para abraçar a minha almofada carnal de todos os dias durante horas, enquanto as pálpebras com peso de chumbo me levavam a outra dimensão... cedi a essa força maior, descontente dos factos, vazia de tudo e mais não sei o quê... os raios esforçam-se por determinar a sua presença, reflectidos no toque incessante duma melodia irritante e cansativa... desperto lado a lado, desconhecendo porque ali estou... e mais um passo que segue depois do outro, mais um rosto lavado, pronto para ir aos entraves a uma escolha diária mas indesejada... são horas a fio a amarelar nesta futilidade a que se denomina trabalho, porquê não sei... afinal têm que se assegurar ideais de vida, guardados na penumbra até existir nova oportunidade... e nesses fios perdidos de espera, contando apenas os minutos que faltam, multiplicam-se pensamentos, escorridos de um pano rasgado, torcido até à última gota... vão correndo os raios de sol e nada sucede, apenas o cansaço desta espera... vou ansiosa e recebo a inutilidade de ser quem sou... sou apenas e tão somente aquele ser que não inflama, que não surge noutras horas perdidas... cinjo-me a uma terminal de nada, para uma viagem sem destino, paguei um bilhete caro e não consigo rasgá-lo, custou-me lutar por ele, mas agora que viajo no sonho desta descoberta apercebo-me que estou a passar por vales dispersos, paisagens sabotadas, são cenários apenas, nos quais eu nem sei representar... sou tão simplesmente uma actriz neste comboio de vida... escolhi viajar nele, não sei se quero parar, algo me impede... talvez a conquista que lutei para ser minha: ter aquele bilhete nas mãos que me pode levar onde quiser...